quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Descartabilidade

Vinte anos atrás ninguém acreditaria que a mais propalada virtude de um produto comercial pudesse ser... A sua pouca durabilidade! No entanto, é o que acontece com os chamados descartáveis... Produtos cuja maior virtude é a de poderem ser jogados ao lixo o mais rapidamente possível, sem qualquer possibilidade de conserto, recarga ou outra utilização.

Desde as fraldas do bebê até o relógio de pulso ou a calculadora, tudo perde em pouco tempo a sua utilidade, não podendo ser lavado ou receber corda ou uma nova pilha... O mesmo com as toalhas de mesa – que são de papel – os copos e xícaras de plástico, os lenços, guardanapos, canetas, colherinhas de café, pratinhos de sobremesa, máquinas fotográficas...

Em meus tempos de criança, ficávamos admirados só de ver – sem pegar, naturalmente – o belo relógio folheado a ouro, que meu pai ganhara de meu avô, trinta anos antes, quando completara seus quinze anos de idade! E era bem possível que o meu avô tivesse recebido o belo “Patec-Philippe” do meu bisavô... E com que orgulho minha avó exibia as toalhas de linho, com seus guardanapos branquinhos exalando aquele suave odor de malva! Quanto aos velhos “fordes-de-bigode”, ainda nos anos 50 e 60 reluziam seus cromados em algumas garagens ou roncavam pelas estradas poeirentas que ligavam as fazendas de café no interior paulista!

Romantismo piegas? Talvez... pieguice que foi sabiamente substituída pelas latas de lixo que transportam para os monturos da cidade (que já não se tem onde situar) milhares de toneladas por dia de matérias primas retiradas de nossos já escassos recursos naturais, acrescidas de milhões de horas de trabalho de homens que não têm, às vezes, do que se alimentar...

Paradoxal sabedoria essa da descartabilidade!

(Texto escrito em 26/6/01)

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