Parece evidente que o verdadeiro potencial catastrófico da deterioração ambiental de nosso mundo não foi, ainda, conscientizado pelos que nos governam. Digo isso, em termos globais e não apenas brasileiros. A questão ambiental foi adotada como bandeira política, apenas pelo seu caráter “original” de risco devido a fatores passivos, e não – como costumam ser os fatores de risco – diretamente associados a realizações objetivas, de destruição, como as guerras, a bomba atômica. Ou a elementos que não dependem da nossa vontade, como as epidemias. Esse caráter passivo – e a sua novidade – tornou-se atraente à classe política, pela sua inconquistabilidade, pelo seu aspecto sistêmico, não sanável por nenhuma ação administrativa imediatista, o que permite usá-lo como elemento demagógico e irresponsável. Posição cômoda, em que o acusado é a humanidade e o acusador não precisa indicar punições...
A verdade é que as soluções também não são propriamente ativas e objetivas, mas implicam mudanças de comportamento, hábitos, usos e costumes. Mudanças às vezes drásticas e de muito grandes amplitude e alcance. Em princípio, todas elas são conhecidas, avaliadas, sugeridas e reconhecidas... mas raramente praticadas, a não ser pontualmente, o que não resolve grande coisa. O mundo mentalmente sadio reconhece, por exemplo, que a continuação do uso dos combustíveis fósseis está produzindo mudanças climáticas de potencial catastrófico na deterioração do planeta. Condenam-se os que, por motivos econômicos, se recusam a assinar compromissos de participação coletiva no objetivo de “salvar a humanidade”... Porém, mesmo os países e governos que participam desses compromissos, continuam a – não apenas manter, mas - prolongar seus gasodutos, a perfurar novos poços, a construir petroleiros cada vez mais gigantescos.
No campo restrito das nossas prefeituras, por exemplo, muito se tem defendido a chamada “reciclagem”, como providência mágica destinada a resolver todos os problemas do lixo. Porém, pouco tem sido visto em matéria de criação de infra-estruturas que permitam o reaproveitamento do seu principal componente, a matéria putrescível (o lixo, propriamente dito), na produção do composto, única maneira racional de devolver a terra àquilo que dela foi retirado, em lugar de exauri-la e envenená-la posteriormente com produtos químicos. Esse preciosíssimo material continua a ser enterrado, dentro das cidades, como coisa imprestável e indesejável, nos eternos e espaçosos “aterros sanitários”.
(*) Este artigo foi originalmente escrito pelo Prof. Samuel em outubro de 2003
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