sábado, 2 de outubro de 2010

Tratar esgotos e reciclar água - a grande solução

Na economia da água, o grande vilão é mesmo a poluição municipal e industrial! Será que existe solução "mágica" para isso?


Não existem soluções mágicas para a poluição dos rios: existe tecnologia! Desde as mais simples e pouco dispendiosas, como os tanques sépticos, os biodigestores, as lagoas de estabilização e mesmo os valos de oxidação, até os mais sofisticados e "compactos", como os sistemas de lodos ativados. E há também o mais antigo de todos, ainda hoje usado em muitos países, que é a fértil irrigação, ou disposição dos esgotos em solos agrícolas e pastagens. Cada um desses sistemas tem a sua aplicação, dependendo do tamanho da população, área disponível, topografia, clima etc. Todos eles são, porém, igualmente eficazes. Naturalmente, os mais baratos, exigem áreas maiores e consomem apenas energia solar; os mais "compactos" são mais mecanizados e consomem mais energia elétrica.

Os efluentes dessas instalações, isto é, os "esgotos tratados", algumas vezes são lançados de volta aos rios. Mas há muitas outras aplicações para eles. Podem, por exemplo, ser utilizados em irrigação. Ou podem servir para o abastecimento industrial, ou para produzir vapor, nas usinas termo-elétricas. Assim, a reciclagem das águas usadas pode constituir um recurso fabuloso para a economia de água. Imagine se isso fosse feito - como já se pensou - com os esgotos da Grande São Paulo: 50 metros cúbicos por segundo, na irrigação de florestas, para produção de madeira e celulose!

Mas há reciclagens em menor escala, que podem ser praticadas no ambiente de uma fábrica, ou até doméstico! Atualmente, o volume total do rio Tamanduateí, na Grande São Paulo, é usado e reutilizado mais de dez vezes pelas indústrias localizadas na sua bacia! Mas você já pensou na possibilidade de usar a água empregada no banho para a descarga hidráulica do vaso sanitário, em vez de usar água potável, que foi tratada com cloro, flúor e tudo mais? Ou a água despejada pela máquina de lavar roupas, para a limpeza do quintal, ou do automóvel?

É bom pensarmos nisso... ou morreremos de sede às margens dos maiores mananciais do mundo!

Artigo publicado no Jornal do Brasil, assinado pelo Frei Leonardo Boff.

(...)

Há uma tradição transcultural que apresenta o comportamento de certos animais ou aves como exemplar para os comportamentos humanos. Nisso vai intuição antiga que a ciência dos comportamentos comprovou: existem em nós traços herdados de animais ou aves, pois, embora diferentes, formamos com eles uma única comunidade de vida.

Observemos como as águias voam. Elas voam de forma toda própria. Usam a própria força apenas para iniciar o vôo. Batem as asas e forcejam para ganhar certa altura. Uma vez alcançada, aproveitam a força dos ventos e se deixam carregar por eles. Possuem um instinto muito apurado para captar correntes de ar e sabem tirar proveito delas. Se há apenas brisa leve, elas flutuam suavemente. Se irrompem ventos fortes, elas usam da força deles para voar bem alto e deslocar-se com grande velocidade. Apenas manejando à esquerda e à direita suas enormes asas que podem chegar a mais de dois metros de diâmetro.

Bem diferentes são as galinhas. Quando estão excitadas ou se põem a correr, batem muito as asas, fazem grande barulho mas voam apenas alguns metros.

Apliquemos a sabedoria das águias aos nossos comportamentos. Nós não sabemos entrar em sintonia com a natureza. De saída, rompemos com ela em nosso afã de dominá-la com violência e colocá-la a nosso serviço. Não nos harmonizamos com seus ritmos. Ao contrário, ela tem que obedecer aos ritmos que lhe impomos. Este paradigma está na base de nossa civilização hoje globalizada. Trouxe-nos incontáveis benefícios, mas nos exilou da Terra e nos fez inimigos da natureza. Este projeto de dominação, entretanto, sem limites internos, pode tornar-se altamente perigoso. Ele tem depredado a infra-estrutura da vida a ponto de pôr em risco o futuro da biosfera e da espécie humana.

Por isso, mais e mais pessoas hoje procuram uma nova aliança com a natureza. Assim nasceu a agroecologia que implica produzir interagindo respeitosamente com ela. É ilusório um crescimento econômico à la agronegócio que mata e desmata. Importa conhecer os ritmos da floresta amazônica e utilizar tecnologias adequadas a esses ritmos. Só assim se preserva a natureza e se colabora com ela para que continue a nos dar seus bons frutos. Dito de outro modo: importa moderar a lógica de nossa vontade e fazê-la combinar-se com a lógica objetiva da natureza, a exemplo da águia em seu vôo.

Nosso comportamento é construtivo quando nasce do equilíbrio entre o nosso desejo e o desejo inscrito na natureza. Sábia é a pessoa que capta as duas lógicas, a das coisas e a do eu, se harmoniza com elas e as faz convergir. Imatura é a pessoa e atabalhoado é seu comportamento quando só escuta o próprio eu e a toda hora diz: "eu sei, eu quero, eu decido, eu faço" não escutando a voz da natureza como se ela nem existisse. A tradição do Tão ensina que a pessoa só se sente plena e realizada quando sua obra imita o vôo das águias: trabalha junto com a natureza e jamais contra ela. Caso contrário, sempre há uma réstea de vazio e um sabor amargo de implenitude.

Precisamos desinflar o eu e enraizá-lo na natureza. O eu e a natureza formam um todo dinâmico sempre em busca de um difícil equilíbrio. Ambos, cada qual com sua singularidade, devem permanentemente atuar juntos como garantia de uma vida equilibrada e discretamente feliz.

fonte: Primeiro programa

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