Chama-se simonia a prática de fazer comércio das coisas sagradas, como o Simão Mago da Bíblia, que pretendeu comprar ao apóstolo S.Pedro o dom de conferir o Espírito Santo.
Que coisa há, mais sagrada que os genes, os elementos celulares responsáveis pela transmissão dos caracteres distintivos de todos os seres vivos? As diminutas partículas moleculares que fazem de um cão um cão, de um ser humano um ser humano, alto ou baixo, com olhos azuis ou castanhos, com pendores para as artes ou para as ciências?
Enfim, aqueles elementos transcendentais do mais íntimo de nosso ser, que são responsáveis pela personalidade e identidade de cada pessoa? Vender um gene é vender uma alma!
Pois bem: os genes já estão à venda! Começam a ser comercializados, patenteados, catalogados e avaliados em dólares, de acordo com a sua importância em relação ao funcionamento de nossos corpos e mentes... Cada cientista que acerta na identificação de um deles, torna-se potencialmente proprietário do mesmo, podendo comercializá-lo!
A empresa norte-americana Myriad Genetics, que conseguiu identificar o gene BRCA1 (acrônimo de breast cancer, ou câncer da mama), obteve uma série de patentes internacionais que impedem o uso dos métodos de diagnóstico do câncer baseados nesse seqüenciamento genético.
Mesmo outros métodos alternativos de reconhecimento do gene mutante, desenvolvidos por institutos europeus, como o Instituto Pasteur da França, estão proibidos por esse privilégio: só a Myriad pode fazer ou autorizar o diagnóstico precoce de câncer dos seios por seqüenciamento genético!
Ocorre que o câncer da mama constitui uma das principais causas de mortalidade de mulheres em todo o mundo. O reconhecimento do gene mutante permite detectar o risco de câncer muito antes deste aparecer, o que, evidentemente, constituiria um avanço extraordinário nas medidas de proteção à vida humana... Se não fosse objeto da simonia de inescrupulosos vendilhões do Templo do Saber!
(Escrito em 17/abril/2002)
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